Por Gustavo Bonafé

Em janeiro de 2011, minha jornada pelo mundo como voluntário social ganhou um novo capítulo. Sete meses tinham se passado desde que eu saíra de casa, no Brasil. Sete meses onde pude aprender com outras culturas em troca da oferta de meus talentos e paixões dentro da área educacional.

A experiência no exterior seguia seu curso normal, ainda que o “normal” viesse carregado de surpresas diárias e aprendizados para a eternidade. Estava tudo bem até o oitavo dia daquele ano. Subitamente – mas fruto de escolhas passadas e postura imatura frente aos desafios – peguei uma grave infecção alimentar. Fui internado. Estava em Bandung, Indonésia e em breve começaria meu trabalho voluntário como professor de inglês em uma universidade. Isso nunca chegou a acontecer. Tive que voltar para casa às pressas.

Porém, antes deste retorno, fui cuidado por um anjo. Um jovem que, como eu (aos 22 anos), sonhava em fazer a diferença no mundo: Muhidin Rizki; ou Kiki, para os mais amigos. Kiki era o responsável por meu intercâmbio em seu país. Iríamos morar juntos no período em que trabalharia por lá – cerca de três meses.

Foi ele quem – sabe Deus como! – encontrou-me na rua (cerca de 2km de casa) quando comecei a passar mal após ter ido à academia. Ao questioná-lo sobre aquele encontro, pois era para ele estar no trabalho, Kiki simplesmente disse: “senti que devia vir para cá”. Sem forças na hora, nunca retomei a curiosidade sobre aquele momento.

No hospital, meu quadro de saúde piorou na primeira semana. Kiki sempre estava lá. Várias madrugadas, abri os olhos e me deparei com Kiki dormindo debruçado sobre minha cama. Ele levou a sério a palavra “responsável”. Fazia de tudo para passarmos o tempo – jogos, livros e até amigos. Kiki era também a ponte com minha família no Brasil e assumiu prontamente o papel de conversar com minha mãe (hoje “mommy” dele também) via Skype, todos os dias. Kiki foi parte essencial da minha cura – que se completou após quatro meses. Kiki abdicou de seu tempo livre (e muitas vezes de trabalho) para cuidar de um “desconhecido brasileiro”. Quando não estava comigo no hospital, estava em casa, cuidando de sua mommy verdadeira, que enfrentava o câncer na época.

Como não louvar um ser humano assim – que apesar de qualquer desafio da vida, estampava um sorriso largo – e “metálico” – no rosto? Que conseguia fazer o tempo fluir quando o tempo era tão demorado? Que criou um remédio para um irmão seu a partir do bom humor? Kiki levou a sério o que é “SER humano”. Por isso, sou eternamente grato ao meu irmão de Bandung.

 

Esse é o Kiki

Kiki

Escola do Altruísmo

Author Escola do Altruísmo

More posts by Escola do Altruísmo

Leave a Reply