Os anjos da praia

Os anjos da praia

Por Adma Garzeri

Por muitos anos essa história foi contada e repetida na nossa família. Sempre com um sentimento de admiração e gratidão. Fazia com que nos sentíssemos mais unidos.

Eu me lembro bem da situação. Do cenário grandioso, do medo e aflição que via no rosto dos meus pais, e que ecoava em mim, até do cheiro do mar nesse dia eu me lembro. Um dia de sol daqueles de verão grandioso, numa longa praia deserta.

Eu tinha uns 10, 11 anos, talvez. Minha irmã tinha 8 e meu irmão menor, 2 anos. Estávamos na praia, nas férias escolares. Viagens eram raras naquela época, e papai tinha decidido viajar para o litoral, para nossa alegria.

Naquela tarde ele estava nos levando passear de carro, uma perua Chevrolet dourada, recém comprada. Dizia ele ter sido de um funcionário da embaixada americana. Se era mesmo eu não sei, mas isso aumentava o glamour do carro.

Ele tinha saído da estrada e andávamos dentro da praia. Bem perto do mar. Na estrada Guarujá-Bertioga no litoral paulista, nos anos sessenta, era possível entrar numa praia com o carro e andar correndo pelas areias, como nos anúncios que vemos hoje na TV.

Estávamos nós cinco no carro, papai dirigindo, mamãe ao lado abraçada a ele, e nós, as crianças, no banco de trás.

As janelas abertas, para entrar o vento, o cheiro maravilhoso do mar, os respingos da água.

Ele adorava dirigir em zigue-zague, se aproximando e se afastando das pequenas ondas, cada vez mais rápido, para nosso deleite, entre nossas risadas e os gritos assustados da mamãe.

Eis que de repente, o carro parou. Deu um tranco e parou. Simples assim. Afogou o motor. A alegria do meu pai o tinha traído, e ele se aproximara demais do mar.

Ficamos mudos, e descemos do carro. As rodas estavam presas na areia molhada, e bem lentamente, sendo absorvidas por elas, afundando nelas com o peso do carro. Enquanto secava o motor, tentamos inutilmente empurrar o carro, cavar com as mãos, procurar madeiras por perto para colocar em baixo, mas nada conseguíamos fazer para mudar a situação. Estávamos sós, e o carro preso na areia.

A maré cheia mostrava sua força e avançava. Íamos perder o carro! Íamos perder as férias! Ïamos perder a alegria do papai e da mamãe! Onde íamos dormir ? Como sair de lá sem o carro? A praia era bem longe da cidade, e completamente deserta.

Minha mãe começou a rezar. Não havia nada por perto, nenhuma casa, bangalô, barraca, nada.

Então, de repente, vimos três pontinhos lá no horizonte. Como naqueles filmes de aventura no deserto, lá longe, três pontinhos, que pareciam uma miragem, um desejo se materializando, se aproximando e tomando forma, lentamente.

Começamos a gritar e acenar. Era incrível o barulho que três crianças e dois adultos apavorados conseguiam fazer.

Começamos a ver melhor e três homens se aproximavam. Levou muito tempo para chegarem perto. Tempo suficiente para as rodas serem quase engolidas pela areia e pela água que insistia em subir, ignorando a nossa aflição.

Os homens chegaram perto. Pareciam pescadores. Eram sérios e marcados de sol. Pararam perto de nós, e ante nosso olhar de desespero, se colocaram na traseira do carro, mandaram meu pai subir, ligar o motor e acelerar.

Eu não conseguia acreditar no que eu via. Eles sacudiam o carro para cima e para baixo, e com a força que tinham, força de empurrar barcos, conseguiram livrar as rodas da areia, e o carro finalmente se moveu, e conseguiu se libertar.

Começamos a gritar, a pular, a agradecer a Deus por ter nos enviado aqueles anjos, e mamãe chorava de gratidão e alivio.

Meu pai desceu do carro, colocado a salvo na areia seca e firme bem mais a frente, e foi falar com os homens.

Lembro que eles continuavam sérios, meu pai enfiara as mãos nos bolsos e apanhara o dinheiro que trazia consigo para oferecer a eles, que recusaram. Assim como recusaram uma carona na direção em que iam.

Eles apenas acenaram para nós, e seguiram no seu caminho, Seguiram no seu andar calados e sérios, como haviam chegado. Anônimos, eles se foram.

Nós ficamos olhando eles sumirem no horizonte, sem acreditar no que havia acontecido. No perigo que passamos, na ajuda altruísta que recebemos. Não quiseram nada em troca do que fizeram por nós. Eles haviam interrompido o seu caminho, a sua direção, a sua atenção, para nos ajudar. Somente por altruísmo, e nada mais.

#issoéaltruísmo

 

 

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