Por Milene Mizuta

Na minha história tenho tantos exemplos lindos de Altruísmo que falar sobre eles é quase que falar sobre minha vida como um todo.

Mas hoje especificamente eu quero falar sobre quando o Altruísmo veio na minha vida em forma de um “não”.

É difícil reconhecer que algo bom possa nascer de um momento em que te negam algo, de um momento de crise onde a ajuda que você esperava não veio. Mas se você olhar por detrás do que parece ser, sempre tem algo diferente a ser aprendido e a gente pode se surpreender quando olha para trás, e eu adoro me surpreender com meus aprendizados e reconhecer todos eles como uma forma genuína do meu próprio processo de amadurecimento e descoberta dessa grande xarada que é ser quem sou.

Quando aos 24 anos vim morar em Florianópolis com um filho de oito meses e tudo que cabia dentro de um carro, tive muita ajuda de meus pais.

Apesar de uma situação bem simples, eu tinha aos trancos e barrancos o que precisava.

Num desses dias despretensiosos, meu pai um sujeito calado, muito observador, que leva a vida de forma muito simples e singular, me perguntou: “Filha você fez seguro do seu carro?”

Me lembro que minha resposta foi um misto de “não” com uma argumentação sobre os milhões de motivos que me impediam de fazê-lo. Meu pai com seu jeito reservado e respeitoso, só me ouviu.

Alguns anos depois, meu carro foi roubado.

Com um filho pequeno, trabalhando a trinta kilometros da minha casa, morando longe da família, ficar sem carro era algo muito difícil.

Lembro-me de no dia seguinte ligar para ele, chorando, dizendo o que tinha acontecido, pedindo ajuda.

Ele respondeu com muita calma: “Filha, eu não posso te ajudar, sinto muito, mas você vai ter que se virar.”

Meu mundo desabou, senti um misto de raiva, desamparo, tristeza.

Passei duas semanas de ônibus com uma criança pequena, saindo de casa as seis da manhã chegando em casa as nove horas da noite.

O fato é que eu realmente me virei, comprei um carro, fiz um seguro.

Foi duro, mas foi a partir dessa fato que  me dei conta de uma coisa muito importante e que mudou tudo, eu era responsável pela minha vida e com isso surgiu em mim um sentimento de dignidade. Eu sou responsável e posso dar conta daquilo que criei.

Hoje sendo mãe consigo entender o tamanho do desprendimento que esse senhor na posição de meu pai, teve que ter em me negar algo em um momento de dificuldade.

Mas também percebo o tamanho da confiança dele em mim, o quanto ele me percebia capaz de dar conta da minha história.

O quanto ele se preservou  e não fez algo além das possibilidades dele, para que aquilo se tornasse elemento de barganha e de reconhecimento futuro. Ele não me deu, mas também me libertou da cobrança do reconhecimento e da dívida. Com simplicidade ele não interferiu na minha escolha e com muita sabedoria foi capaz de perceber que naquele momento eu tinha que dar conta da conseqüência do que havia escolhido.

A imagem dele como pai naquele momento não interferiu na essência do papel de educador, ele foi corajoso.

Ele sabia que não sairia como notícia nas redes sociais, sabia que poderia ser mal interpretado, mas nada disso importou.

Quando eu liguei para ele contando – com um certo ar de rancor, confesso – que tinha comprado um carro, ele me respondeu: “Mi, seu sabia que você conseguiria, te admiro e amo você.”

Mudou minha vida.

#issoéaltruísmo

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