Por José Mario Ferreira

Morei em Baghdad, Iraque, por três anos, de 1979 a 1982.

Imagine um menino brasileiro de vinte quatro anos chegando naquela cultura tão peculiar.

Poderia ficar horas contando histórias de situações vividas que são muito curiosas para nós aqui no Brasil.

Mas há uma história, em particular, que me marcou.

O Iraque é cortado por dois rios o Tigres e o Eufrates, ao longo do rio a terra é fértil e bastante produtiva, do ponto de vista agrícola. Mas, basta afastar-se poucos quilômetros do rio e o deserto mostra sua cara. Por essa razão, há três lagos alimentados pelo Eufrates que são verdadeiras “jóias” pela contribuição à vida local.

Em um deles, Habbaniyah Lake, foi construído um resort bastante agradável e que servia de lazer para os brasileiros que por lá residiam.

Em um final de semana eu e mais dois colegas decidimos conhecer melhor a região e começamos a circundar o lago, achavamos que seria relativamente fácil. Mas a inexperiência nos fez subestimar a complexidade do local e o carro atolou em um banco de areia, após termos rodado a mais de uma hora no deserto.

Tentamos de todo o jeito retirar o carro do atoleiro mas não conseguimos.

O sol começava a baixar e decidimos andar. No meio do deserto você não sabe mais onde é para frente ou para trás, aquela imensidão torna a distancia relativa e muito pouco possível de precisar qualquer coisa. Pensamos estarmos próximos ao hotel, e resolvemos então andar para – o que chamamos – frente.

Mas o lago tem 140 quilometros quadrados de extensão, informação essa que não sabíamos e certamente caminharíamos noite a dentro e não chegaríamos a lugar algum.

Depois de uma hora de caminhada e a noite tomando conta, vimos um farol de carro vindo atrás de nós. Ficamos preocupados e com medo pois falava-se em insegurança na região, dois homens e uma mulher, sozinhos no deserto, o cenário não era nada bom.

O carro veio até nós e não tínhamos para onde correr, então paramos e fomos o mais simpáticos que pudemos. Dois homens desceram e começaram a falar conosco em árabe, língua que não entendíamos, de alguma forma por meio de gestos, nos convenceram a entrar no carro. Voltamos todo o trajeto, estávamos muito longe do local de onde saímos. Tinhamos andado mais do que imaginávamos.

Passado o susto, chegamos ao ponto do nosso carro, eles nos ajudaram a desatola-lo e ainda nos acompanharam de volta até o hotel. Lá pudemos chamar alguém que falasse inglês e conseguimos então entender que eles acharam o carro atolado (que tinha a identificação da nossa empresa brasileira), viram as marcas de nossas pegadas caminhando na direção errada, e perceberam que iríamos entrar numa grande “fria” ,literalmente, porque a temperatura cai uns 25 graus a noite no deserto.

Esses homens mudaram todo seu trajeto para nos recuperar.

Agradecemos muito e, então, pudemos ter uma explicação de colegas árabes sobre a importância que eles dão ao fato de se ajudarem no deserto. Aquele vida inóspita criou um lindo código de ajuda mutua em qualquer situação (mesmo que, depois, venham a entrar em disputa por qualquer assunto). Hospedar e dar abrigo no deserto é uma obrigação moral, não se discute, não se questiona, apenas ajuda-se, para que esse código possa ser mantido e perpetuado e possa servir a todos, sempre sem distinção.

Com 24 anos eu achei aquilo uma loucura.

Aos 60 anos eu compreendo e consigo lembrar com carinho e respeito por aquele povo.

#issoéaltruísmo

 

 

 

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